Movimentos se unem para debater uma cidade de direitos (Outubro/2015)

Originalmente publicado no site do Núcleo Piratininga de Comunicação

O que tem a ver a luta pela vida da juventude brasileira com o movimento dos trabalhadores sem teto e os megaeventos? E a comunicação nesse meio? No Rio de Janeiro, tudo isso se liga. Numa cidade que se modifica em tantos aspectos – transporte, moradia, policiamento, urbanização – para receber os megaeventos esportivos, é preciso também que os movimentos estejam conectados para lutar e resistir. Essa foi a proposta do debate “Cidade Conectada: comunicação e direitos no Rio de Janeiro”, ocorrido na última quarta-feira (21) no centro do Rio. Participaram membros do Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro (FJRJ), Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), Comitê Popular da Copa e Olimpíadas, Clube de Engenharia e Intervozes.

Antes do evento começar, um policial militar entrou no local para ver o que estava acontecendo, fotografar e poder mostrar a algum superior que não era a organização de um protesto. Este é um exemplo da repressão que os movimentos sociais vêm sofrendo ultimamente. Tal situação fica pior longe dos edifícios do centro, como disse Marcelle Decothé, representante do Fórum de Juventudes. Nas favelas e periferias, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) reforçam a lógica de controle da população, herança da ditadura. Os policiais reprimem os moradores, invadem casas e assassinam inocentes, entre outros tipos de violência. Para piorar, situações como essas só podem ser filmadas ou fotografadas pela mídia comercial, que, normalmente, favorece a própria polícia. Dessa forma, parte da sociedade recebe uma versão dos acontecimentos que reforça preconceitos sobre favela e periferia. Quem é de dentro mal consegue fazer sua voz ecoar. “O processo de militarização é cruel ao ponto de tirar sua liberdade de expressão”, afirmou Marcelle.

Esse “silêncio” da comunicação acontece com diversos outros movimentos. “A mídia tem ‘autorização’ pra falar que nós somos invasores e que usamos da violência para invadir o espaço alheio”, expressou Fabiana Batista, do MTST. O movimento do qual participa acredita numa comunicação direta, consciente e crítica, em que seja a trabalhadora ou o trabalhador quem fala. Um exemplo é o jornal O Formigueiro, publicação do MTST do estado do Rio. Nele se fala de assuntos internos, para quem é do movimento, mas também de outros temas locais, como protestos de professores.

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Marcelle Decothé, do FJRJ, fala dos impactos da militarização da cidade para a juventude. Na foto, da esquerda para a direita, membros do MTST, Clube de Engenharia, Intervozes, Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas e Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro.  Foto: Carolina Vaz

Olimpíadas para quem?

Tudo isso se insere no contexto da “cidade olímpica”, na qual a prefeitura do Rio de Janeiro, com muitos apoios estatais e privados, tem tentado transformar a cidade. Essa observação foi feita por Julia Bustamente, do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas. Como ela lembrou, a preparação começou em 2007, época do Panamericano, cuja estrutura depois não foi destinada a outras atividades esportivas. A prefeitura prefere fechar ou destruir espaços esportivos existentes e construir novos. Isso, segundo a militante, não ocorre à toa: as empresas contratadas para realizar as obras doaram grandes quantias para a campanha de Eduardo Paes, e são agora investigadas na operação Lava-Jato. “As empresas são as verdadeiras vencedoras”, afirmou. Enquanto isso, segundo Júlia, cerca de metade das escolas do Rio de Janeiro não têm quadra de esportes, foram fechados o Estádio de Atletismo Célio de Barros e o Parque Aquático Julio Delamare. Uma reserva ambiental se tornou um campo de golfe na Barra da Tijuca e centenas de pessoas da Vila Autódromo foram removidas para dar lugar ao Parque Olímpico. Milhares de outras pessoas, de outras partes da cidade, também tiveram que sair de seus lares para dar lugar a outros projetos de urbanização, como o Porto Maravilha.

Por uma outra comunicação

Segundo Gustavo Gindre, membro do Intervozes, no Rio de Janeiro precisamos de um outro modelo de cidade e de um outro modelo de comunicação para representar a cidade. Como lembrou Iara Moura, também do Intervozes, apesar de a radiodifusão (televisão e rádio) no Brasil ser legalmente submetida a regras de uso público, sempre teve uma lógica de empresa. Em geral, a sociedade não acredita que pode participar ou intervir no seu funcionamento, mas pode. Gustavo acredita ser importante aproveitar as eleições de 2016 para os movimentos de comunicação expressarem aos candidatos suas demandas. Algumas de suas sugestões são o estímulo a canais de TV e rádios comunitárias, destinar verba de publicidade do governo para a comunicação comunitária e a criação de um conselho de comunicação da cidade.

imagem-intervozes-2-jpgGustavo Gindre acredita ser possível uma nova comunicação para um Rio de Janeiro de direitos. Foto: Carolina Vaz

 

 

 

 

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